sábado, 5 de julho de 2008

WC GRAFFITIS

Os sanitários públicos masculinos são uma área exclusivamente destinada aos homens.
Esses espaços são reservados às práticas intimas das necessidades fisiológicas exclusivas aos membros masculinos da espécie humana: os homens. Como tal é um espaço que deve estar sujeito a uma morfologia própria e com um código próprio de utilização; código esse que tem que ver com os perfis padrão do que se entende como sendo o comportamento tradicional masculino.

Uma das coisas que mais me diverte e informa sobre o entendimento do comportamento do meio-social em que me insiro, é a observação e leitura dos graffitis expostos no interior das cabinas individuais das retretes masculinas.
Mais ou menos obscenos, mais ou menos insultuosos, mais ou menos racistas, mais ou menos escatológicos, são verdadeiras obras primas de arte espontânea e o modo mais primário e imediato, de exorcizar os fantasmas que habitam o interior das almas dos seus autores. São um retrato autêntico e actualizado das forças telúricas que modelam as nuances da interacção dos diferentes grupos sociais que compõem uma comunidade.

Pode ler-se de tudo: a glorificação de clubes de futebol pelos seus adeptos e a subsequente troca de insultos entre adeptos de clubes rivais, o mesmo acontecendo em relação a diferentes partidos políticos; desabafos e imprecações contra as políticas dos governos; a troca de insultos e acusações de cariz xenófobo e racista; a procura de parceiros sexuais com a descrição dos actos pretendidos, uns apresentando contacto telefónico e outros marcando encontros com hora e local especificado; os mais patéticos rosários das infelicidades pessoais, revelando uma imensa frustração (Sartre chamaria de náusea existencial) pela sua própria condição de vida; etc.

Esse tipo de manifestação e intervenção social deveria ser respeitado e preservado, enquanto testemunho museológico vivo do mundo em que decorre o quotidiano de nós homens.
Sinto-me afrontado cada vez que verifico que tais testemunhos foram eliminados por clínicas camadas de tinta branca, num púdico e prepotente atentado à liberdade de expressão e afirmação.

Os sanitários masculinos são reservados a homens e estes têm uma expressão tipificada. Pode ser alarve, rude, boçal e obscenamente decadente, mas é uma forma de expressão própria e que condicionada a um espaço de acesso restrito e selectivo, não pode ser apreciada como se a mesma se verificasse em locais de acesso livre e geral. Por isso acho atentatória da liberdade de expressão a eliminação desses testemunhos em tais locais.

Abaixo o pudor moralista!!!

3 comentários:

São disse...

Viva a masculinidade!!
Feliz resto de domingo...

Jorge "Lnu" Oyafuso disse...

Oi ManDrag!

Não há banheiro que não tenha isso, né? Nem a UniNove escapa...

Eu dou tanta risada quando vou nesses banheiros, e, sinceramente, não vejo isso como alguma arte, nem sei se posso considerá-lo como tal... mas não deixa de ser engraçado, nunca deixo de ler! Mas eu acho que devia ter revistinhas!

Mas é o que dizem:

"Cagar é uma reflexão profunda... a merda bate na água, a água bate na bunda!"

Deprimente, né. huahuahua

SILÊNCIO CULPADO disse...

ManDrag
É quando a pessoa se aproxima de si própria nessas manifestações aparentemente primárias, que compreendemos o sentido da vida para lá do verniz.
Excelente post.
Abraço